Projeto brasileiro com inteligência artificial promete devolver voz, autonomia e atividade profissional a pacientes com ELA
Os responsáveis pelo projeto desenvolveram uma iniciativa de R$5 milhões, atualmente em versão beta, que poderá atender pessoas que perderam os movimentos, mas mantêm as funções cognitivas preservadas.
Um projeto inédito brasileiro que utiliza inteligência artificial promete devolver voz, autonomia e carreira a pacientes com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). O Brasil celebra o Dia Nacional de Luta Contra a Esclerose Lateral Amiotrófica neste domingo (21).
A data é dedicada à conscientização sobre a doença neurodegenerativa rara que provoca a perda progressiva dos movimentos e compromete funções essenciais como falar, caminhar, engolir e respirar. Para milhares de pacientes, o avanço da doença representa também o afastamento precoce da vida profissional, acadêmica e social.
Porém, um projeto inovador desenvolvido no país está ajudando a mudar essa realidade. A iniciativa inaugura um novo campo de atuação da inteligência artificial, voltado não apenas à comunicação, mas também à preservação da produtividade intelectual, científica e profissional.
Fruto de uma parceria entre a Fundação Unimed e a startup brasileira WorkAI, o projeto ExtensIA utiliza inteligência artificial para preservar, ampliar e perpetuar o conhecimento desses profissionais. A iniciativa é voltada a pessoas com doenças neurodegenerativas que comprometem os movimentos, mas preservam as capacidades cognitivas.
IA devolve voz e autonomia
O primeiro estudo de caso do projeto é o da psiquiatra Maria Inês Quintana, uma das maiores especialistas brasileiras em transtorno de personalidade borderline. Diagnosticada com ELA há quase três anos, ela perdeu completamente a mobilidade do corpo, mas continua cognitivamente ativa. Com o apoio da tecnologia, ela retomou suas atividades profissionais.
Mesmo após perder completamente os movimentos do corpo, Maria voltou a lecionar, palestrar e compartilhar seu conhecimento com médicos e estudantes. A ExtensIA representa um marco na aplicação de inteligência artificial voltada à continuidade profissional e intelectual.
No caso de Maria Inês, a tecnologia permite que sua carreira acadêmica e clínica não seja interrompida pela progressão da doença. Professora afiliada do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, coordenadora de pesquisa do Ambulatório de Transtornos da Personalidade e coordenadora do curso de pós-graduação em Saúde Mental da Faculdade Unimed, Maria Inês precisou buscar alternativas para continuar se comunicando. A especialista também precisou adaptar a rotina para seguir exercendo a profissão. Atualmente, utiliza tecnologias assistivas como o Tobii Communicator, que permite a digitação por meio do movimento dos olhos.
O projeto de cerca de R$5 milhões está na versão beta e tem a Seguros Unimed, a Unimed Campinas e a Unimed-BH como investidores. Em breve, poderá ser aplicado às pessoas que perderam os movimentos, mas mantêm as funções cognitivas preservadas.
Entenda o projeto
A WorkAI estruturou o sistema em três frentes complementares, que combinam ciência médica, engenharia de dados e inteligência artificial de alta complexidade.
A primeira é o Agente Clínico Assistivo, um conjunto de IAs treinadas com todo o acervo intelectual acumulado por Maria Inês ao longo de mais de 30 anos de atuação. A segunda frente é o Avatar Digital Palestrante, já em operação.
Desenvolvido a partir da imagem e da voz originais da psiquiatra, o avatar é capaz de ministrar aulas e palestras de maneira assíncrona. O sistema pode se comunicar em português, inglês e espanhol.
A equipe do projeto integrará o Sistema Multiagente Coordenador, a terceira frente da iniciativa, aos sistemas educacionais da Faculdade Unimed. Um conjunto de agentes de IA será responsável por diferentes tarefas. Entre elas estão a organização de grades curriculares, a análise de ementas e o apoio à gestão acadêmica.
Com um Instituto de Ciência e Tecnologia, a Fundação Unimed, por meio da Faculdade Unimed, é a responsável pela coordenação científica e institucional do projeto. “O ExtensIA integra ciência, tecnologia, mas, principalmente, o cuidado com as pessoas. A iniciativa apresenta uma nova forma de compreender, preservar e compartilhar o conhecimento humano, mesmo diante das limitações impostas por doenças irreversíveis”, reforça o professor Dr. Fábio Gastal. O psiquiatra também atua como diretor acadêmico da Faculdade Unimed.



