Check-up deixa de ser padrão e passa a ser personalizado, considerando idade, histórico e hábitos para prevenir doenças com mais eficácia
Check-up deixou de ser sinônimo de uma lista padronizada de exames e passou a ocupar um papel estratégico na prevenção de doenças. Cada vez mais, a avaliação de saúde é construída de forma personalizada, levando em conta idade, sexo, histórico familiar, hábitos de vida e fatores de risco individuais.
“A ideia do check-up não é sair diagnosticando doenças, mas entender os riscos para que possamos agir antes que eles se tornem problemas reais”, explica Marcos Rienzo, cardiologista e gerente médico da unidade Itaim do Hospital Sírio-Libanês. Segundo ele, prevenção hoje significa personalização e bom senso, com avaliações simples, mas bem direcionadas.
Na população adulta, alguns exames continuam sendo indispensáveis como eletrocardiograma, dosagens de colesterol e glicemia, além da avaliação da função dos rins e do fígado, que formam a base do check-up moderno. “São exames de laboratório simples, mas extremamente importantes para identificar alterações que muitas vezes não apresentam sintomas”, afirma Rienzo. A partir desses dados iniciais, o médico define se há necessidade de exames complementares ou avaliações específicas.
Idade, doenças crônicas e hábitos entram no radar
Com o avanço da idade, o rastreamento passa a ser ajustado. Nas mulheres, a avaliação das mamas é essencial, enquanto nos homens, a atenção se volta para a próstata. A partir dos 45 anos, cresce a importância da investigação do intestino grosso, já que o câncer colorretal torna-se mais frequente a partir desta faixa etária. “A indicação de exames como a colonoscopia depende do risco individual e de critérios médicos bem estabelecidos”, ressalta o cardiologista.
Doenças crônicas são os principais alvos do check-up personalizado. Hipertensão, diabetes, dislipidemias, aterosclerose e algumas arritmias cardíacas podem evoluir por anos sem sinais claros. “A hipertensão, por exemplo, pode permanecer assintomática por décadas. Muitas pessoas só descobrem quando já houve alguma complicação”, alerta Rienzo. O diagnóstico precoce permite evitar desfechos graves como infarto, AVC, insuficiência renal e complicações oftalmológicas.
Além dos exames, o estilo de vida ganhou protagonismo na avaliação de saúde. Alimentação, rotina de atividade física, qualidade do sono, consumo de álcool, tabagismo e saúde mental passaram a integrar o check-up de forma estruturada. “O cuidado com a saúde hoje precisa ser integrado. A pessoa passa por uma avaliação com o clínico geral, pelo ginecologista, pelo nutricionista e também com o fisiatra, para orientar a prática adequada de atividade física. A saúde mental ganhou um papel central, já que a avaliação psicológica ajuda a identificar riscos, sinais precoces de sofrimento emocional e a necessidade de um acompanhamento mais atento”, explica o médico.
Uso de tecnologia ajuda a ganhar tempo
A busca por praticidade impulsionou o crescimento dos chamados check-ups executivos, nos quais o paciente realiza exames e passa por avaliações médicas e multiprofissionais em poucas horas. “A pessoa chega pela manhã, segue um protocolo definido com exames de acordo com idade e sexo, passa por clínico geral, especialistas, nutricionista, avaliação física e psicológica, e finaliza tudo no mesmo dia”, explica Rienzo. Após análise, recebe um retorno detalhado com orientações personalizadas.
Segundo o especialista, outro movimento que vem ganhando espaço é o uso de tecnologias e dispositivos vestíveis no acompanhamento da saúde. Essa coleta de dados conversa diretamente com as novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), que passou a priorizar ferramentas como o Escore PREVENT, criado pela American Heart Association, que utiliza IA e variáveis clínicas para calcular o risco de eventos cardíacos nos próximos 10 anos, permitindo que o médico tome decisões muito mais precisas do que a simples análise isolada do colesterol .
Relógios inteligentes, anéis e aplicativos monitoram pressão arterial, frequência cardíaca, sono e nível de atividade física. “Eles não servem para fechar um diagnóstico, mas ajudam a levantar alertas e a acompanhar tratamentos”, diz o médico. Casos de arritmias cardíacas identificadas por alertas de smartwatches, por exemplo, já fazem parte da prática clínica.
No acompanhamento da hipertensão, por exemplo, medições domiciliares ajudam a entender se a pressão está controlada ao longo do dia. “Às vezes, a pressão está boa na consulta, mas permanece elevada por várias horas diariamente. Esse tipo de informação é valiosa para que possamos ajustar o tratamento”, explica Rienzo. Afinal, “Quanto mais cedo identificamos alterações silenciosas, maiores são as chances de evitar complicações no futuro”, conclui o médico.



